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quinta-feira, 30 de abril de 2015

Só 8,2% do cérebro dos evolucionistas é funcional

Por Jonathan Wells

Segundo uma notícia recente proveniente da Science Daily, pesquisadores de Oxford afirmam que muito provavelmente só 8,2% do nosso ADN é funcional. O resto é "lixo". Este número (8,2%) contradiz as conclusões do projecto ENCODE (para "Encyclopedia of DNA Elements"), que foi estabelecido depois do Human Genome Project como forma de esclarecer o nosso recém-sequenciado ADN.

Em Setembro de 2012, os resultados de mais de um milhar de experiências - envolvendo dezenas de laboratórios e centenas de cientistas de três continentes, publicando quase de modo simultâneo em dezenas de artigos em cinco revistas científicas distintas - disponibilizaram evidências de que 80% do nosso ADN é funcional.  Estes resultados são consistentes com o "The  Myth of Junk DNA", que publiquei em 2011. Mas a pesquisa ENCODE já decorria há cinco anos.

Porque é que os artigos foram publicados quase ao mesmo tempo? Muito provavelmente porque os autores queriam apresentar uma frente unida contra a reacção que eles anteciparam por partes dos proponentes do "ADN lixo". E a reacção foi mesmo significativa! Os darwinistas Larry Moran, Nick Matzke, e PZ Myers (entre outros) incendiaram a blogsfera com as suas denúncias.

Perto do cerne da controvérsia está a definição de "função". Os pesquisadores do projecto ENCODE definiram função à luz da bioquímica: Um segmento de ADN é funcional se "participa em pelo menos um evento associado ao RNA e/ou a cromatina em pelo menos um tipo de células." Os darwinistas definem função à luz da teoria da evolução: O segmento de ADN é funcional se ele é sujeito à selecção natural.

Os pesquisadores de Oxford adoptaram a abordagem evolutiva e para determinar a percentagem de ADN humano que se encontra sujeito à selecção natural, compararam as sequências publicadas de humanos, camundongos, ratos, gado, cavalos, porquinhos-da-Índia, coelhos, galagos, pandas e rinocerontes. Um dos pesquisadores explicou:

Durante a evolução destas espécies, partindo do seu ancestral comum, as mutações ocorrem no ADN e a selecção natural contraria estas mudanças como forma de manter as sequências de ADN úteis intactas.

Os pesquisadores analisaram os locais de ADN onde as inserções e as eliminações se encontravam distantes umas das outras, assumindo que as sequências de ADN intervenientes haviam sido constrangidas através da purificação da selecção visto que era biologicamente funcional. Eles apuraram que só 8,2% do nosso ADN se encontra constrangido desta forma, e muito provavelmente funcional (embora menos de 2% do nosso ADN codifique proteínas). Eles concluiram que o ADN que era substancialmentte distinto entre as espécies que eles estudaram - ADN que era não-preservado - não tinha sido sujeito à selecção purificadora e, como tal, não era funcional.

Mas embora a conservação de sequências possa implicar funcionalidade, a não-conservação não implica não-funcionalidade - coisa que os biólogos há muito que já reconheceram. De facto, independentemente da forma como as diferenças de ADN possam desempenhar um papel na distinção das espécies diferentes, as sequências não-conservadas devem ser funcionais.

Para além disso, os biólogos actualmente sabem que até 30% do ADN que codifica proteínas dentro dos organismos é composto po "genes órfãos" que têm pouca ou nenhuma semelhança com as sequências de ADN de outros organismos. Embora as funções da maioria das proteínas órfãs ainda não sejam sabidas, poucas pessoa seriam assim tão néscias sugerindo que elas não têm qualquer tipo de função. No entanto, na sua busca por constrangimentos evolutivos tais como aqueles usados pelos pesquisadores de Oxford, estas regiões codificadoras de proteínas seriam julgadas de "não-funcionais".

A fé na evolução condiciona a interpretação dos dados

Porque é que os darwinistas consideram as especulações evolutivas mais fiáveis que as experiências bioquímicas? Uma pista pode ser encontrada numa apresentação de 2013 dada por Dan Graur num encontro da "Society for Molecular Biology and Evolution" em Chicago. Tal como Graur - oponente vocal e até antipático do projecto ENCODE - afirmou na sua apresentação:

Se, de facto, o genoma humano está vazio de ADN lixo, tal como é implicado pelo projecto ENCODE, então um processo evolutivo longo e sem-direcção não pode explicar o genoma humano. Se, por outro lado, os organismos foram arquitectados, então espera-se que todo o ADN, ou a maioria possível, exiba algum tipo de funcionalidade. Se o project ENCODE está certo, então a Evolução está errada.


Portanto, embora a definição de "funcional" se encontre no centro da controvérsia, a aderência à teoria da evolução encontra-se ainda mais. E parece que essa aderência ao Darwinismo faz com que as pessoas fiquem cegas às presunções que elas mesmas fazem. Talvez seja por isso que Gerton Lunter, citado em cima em torno do papel da teoria da evolução no estudo levado a cabo por Oxford, disse ao Science Daily que "a nossa abordagem está largamente livre de suposições e hipóteses."

Fonte: http://shar.es/LJhaW

* * * * * * *
Resumindo, o número "8,2%" usado pelos darwinistas é consequência do que eles PENSAM que aconteceu no passado, demonstrando mais uma vez o peso que as nossas crenças pessoais têm na análise de eventos que não podem ser observados directamente. Ou seja, os darwinistas olham com suspeição para os resultados do projecto ENCODE, que diz que 80% do ADN é funcional, não porque há algum tipo de problema com eles, mas sim porque as suas (do projecto ENCODE) implicaçõe colocam em causa a teoria da evolução.

Se, tal como disse o evolucionista Dan Graur, as formas de vida foram criadas, então seria de esperar que todo, ou a maior parte do ADN, tivesse uma função. E o que é que "dezenas de laboratórios e centenas de cientistas de três continentes, publicando quase de modo simultâneo em dezenas de artigos em cinco revistas científicas distintas" apuraram? Exactamente isso: mais de 80% do ADN têm uma ou mais funções bioquímicas.

A previsão criacionista está de acordo com o que se pode observar, testar e medir, enquanto que as teses evolutivas encontram-se firmes no campo da mitologia naturalista.

quinta-feira, 2 de abril de 2015

A ciência durante a Idade Média

Pergunta: "Porque é que a ciência fez poucos progressos reais durante a Idade Média?"
Resposta por Tim O'Neill (ateu)
Resumo: Esta pergunta baseia-se na crença comum, mas errónea, de que não houve progresso científico durante a Idade Média. Na verdade, há já muito tempo que os contemporâneos historiadores da ciência sabem que isto é um mito, como têm também desenvolvido esforços para demonstrar que, longe de ser uma idade das trevas científica, o período Medieval lançou as bases da ciência moderna.
O Mito da Idade das Trevas Científica
Esta questão baseia-se na concepção comum de que a Idade Média foi uma idade de trevas para a ciência, e que houve "poucos progressos reais" naquilo que chamamos de ciência. Esta é a concepção popular desse período, e é essencialmente a forma como a maior parte das pessoas entende as coisas: nada de mais aconteceu na ciência, ou "filosofia natural", durante o período Medieval até que o Renascimento alterou tudo e a Revolução Científica aconteceu.
Mas esta ideia já não é mais aceite pelos modernos historiadores da ciência e a parte final da Idade Média é, na verdade, vista como um período onde não só ocorreu a mais profunda investigação científica desde os Gregos antigos, mas também como o período dentro do qual os fundamentos intelectuais da genuínca ciência empírica moderna foram lançados.
A concepção comum da Idade Média como um período cientificamente vazio tem persistido todo este tempo, para além de se encontrar impregnada na mente popular, largamente devido às suas profundas raízes sectárias e culturais, e não porque exista algum tipo de base para ela. Esta concepção é parcialmente baseada no preconceito anti-Católico da tradição Protestante, que olhava para a Idade Média como nada mais que um ignorante período da opressão da Igreja.
Para além disso, esta mesma posição foi promulgada por estudiosos do Iluminismo - tais como Voltaire e Condorcet - que tinham um preconceito contra o Cristianismo dos seus dias, e haviam projectado isto para o passado através dos seus polémicos escritos anti-clericais. Mais para o final do século 19, o "facto" da Igreja ter suprimido a ciência durante a Idade Média era algo inquestionável, embora essa crença nunca tenha sido examinada de forma objectiva e adequada.
Foi um pioneiro historiador da ciência, o físico e matemático Francês chamado Pierre Duhem, que começou a desacreditar esta polemicamente-motivada visão da História. Enquanto pesquisava a história da estática, da mecânica e da física clássicas, Duhem analisou o trabalho dos cientistas da Revolução Científica, tais como Newton, Bernoulli e Galileu. Enquanto lia os seus trabalhos, Duhem ficou surpreso por encontrar algumas referências a estudiosos mais antigos, aqueles que operaram na Idade Média supostamente vazia de conhecimento científico.
Quando ele fez o que nenhum historiador antes dele havia feito, e leu os trabalhos de físicos Medievais tais como Roger Bacon (1214-1294), Jean Buridan (c. 1300- c. 1358),  e Nicholas Oresme (c. 1320-1382), ele foi surpreendido pela sua sofisticação, o que lhe levou  a dar início a um estudo sistemático do florescimento científico Medieval do período que ia do século 12 ao século 15, coisa que havia sido ignorada até essa altura.
O que ele e os contemporâneos historiadores de ciência descobriram foi que os mitos Iluministas da Idade Média como uma sombria idade das trevas científica onde havia uma supressão por parte da mão morta da Igreja não faziam sentido. Duhem era um meticuloso pesquisador histórico e alguém fluente no latim; isto significava que ele conseguia ler obras Medievais que haviam sido ignoradas durante séculos.
E como um dos físicos mais renomados dos seus dias, ele encontrava-se numa posição única para avaliar a sofisticação das obras que ele estava a descobrir, e também para reconhecer que estes estudiosos Medievais haviam, na verdade, descoberto elementos na física e na mecânica que há já muito tempo haviam sido atribuídos a cientistas posteriores tais como Galileu e Newton.
As descobertas de Duhem não foram bem aceites pela elite intelectual anti-clerical dos seus dias, e os seus editores foram pressionados para não publicar o último volume do seu "Systeme de Monde: Histoire des Doctrines cosmologiques de Platon à Copernic"; o establishment da altura não estava confortável com a revogação da ideia da Idade Média como era de trevas para ciência. Em 1916 Duhem morreu com o seu trabalho meticuloso, em grande parte, por publicar, e foram só os esforços com a duração de 30 anos por parte da sua filha Helene que causaram a que o trabalho do seu pai visse a luz do dia e a obra de 10 volumes fosse finalmente publicada em 1959.
Por essa altura Duhem já não estava sozinho ao qualificar de mito sem fundamento a tese de que a Idade Média havia sido uma era vazia de avanços científicos. O historiador de ciência Americano Lynn Thorndike já havia seguido a mesma trilha e chegado às mesmas conclusões - nomeadamente, de que os cientistas da Idade Média haviam sido erradamente ignorados e negligenciados desde o Iluminismo (largamente por motivos políticos e ideológicos). No seu 8º volume "History of Magic and Experimental Science" (1923-1958) também ele descobriu que a ciência durante a Idade Média era vasta, especulativa e altamente sofisticada.
Estes pioneiros dos primórdios da história da ciência foram agora seguidos por uma longa lista de historiadores focados no assunto, e eles têm causado a que este período da história científica se tenha tornado ainda mais claro. Os mais importantes e contemporâneos académicos da área, tais como David Lindberg, Ronald Numbers e Edward Grant, têm revolucionado o nosso entendimento da forma como os cientistas da Idade Média construíram o seu trabalho com base no que herdaram dos Gregos e dos Árabes [*] , e também da forma como eles avançaram ainda mais com o conhecimento e lançaram as bases da ciência moderna, tal como a conhecemos.
O  inovador trabalho de Grant, com o nome de "The Foundations of Modern Science in the Middle Ages", revela detalhadamente que a Revolução Científica do século 17 simplesmente não poderia ter acontecido se o conhecimento do mundo académico da Europa Ocidental tivesse permanecido idêntico ao que era antes do princípio do século 12, ou se tivesse ficado no nível que tinha na parte final do século 3º . Não só foram necessários os avanços cientificos mas também as alterações intelectuais  da parte final da Idade Média para preparar o caminho para Galileu e Newton.
Longe de ter sido uma idade das trevas, a parte final da Idade Média tornou possível a ciência moderna. Mais recentemente, o livro "God's Philosophers: How the Medieval World Laid the Foundations of Modern Science" (2009) de James Hannam apresentou uma popularização da erudição moderna (aclamada pela crítica) do assunto, numa tentativa de tentar corrigir vários séculos de preconceito e erro que ainda existem na imaginação popular.
​A Verdadeira Idade das Trevas Científica
Certamente que existiu um período no mundo Ocidental durante o qual a filosofia natural estagnou, enfraqueceu, e onde toda a tradição científica dos Gregos e dos Romanos esteve em risco de se perder. Mais tarde, os estudiosos Helénicos e Romanos herdaram o trabalho dos proto-cientistas Gregos do século 4º e 5º AC. e construíram sobre ele.
Por volta do Primeiro Século AD os estudiosos Romanos tinham a tendência de ler o Grego de forma a poderem ler as obras de Aristóteles e Arquimedes na sua língua original, mas havia também uma crescente tradição de colecções enciclopédicas de sumários de pontos-chave dos trabalhos anteriores provenientes dos Gregos, que tendiam a ser compilados em Latim. Os estudiosos do Primeiro e do Segundo século adicionaram algumas contribuições à ciência, especialmente Ptolomeu (astronomia e matemática)  e Galeno (medicina), mas muitos estudiosos Romanos orientaram-se com sumários e enciclopédias em Latim como forma de entender melhor obras prévias.
No entanto, por volta do Terceiro Século ocorreram enormes agitações sociais e políticas que interromperam a vida Romana, incluindo a vida académica - algo que teve, mais tarde, consequências profundas. O Império entrou no que é hoje chamado de "Anarquia Militar", onde imperadores rivais ascenderam e caíram em rápida sucessão e o Império foi torturado década após década com guerras civis e opressão política. O Império enfraquecido sofreu invasões por parte dos recém-ressurgentes Persas Sassânidas e também por parte das maiores e mais agressivas federações de bárbaros Germânicos. Cidades que haviam estado em paz há séculos começaram agora a construir muralhas defensivas, recursos que dantes iam para edifícios e obras públicas iam agora para guerras infindáveis, e a dada altura o Império foi dividido em três partes.
Sob a direcção de Diocleciano e dos seus sucessores, foi imposta uma forma de estabilidade através dum tipo de monarquia imperial mais centralizada, para além de terem sido levadas a cabos reformas económicas e uma melhoria do exército e da administração Imperial. Mas apesar destas medidas, partes do Império nunca mais foram totalmente  recuperadas, especialmente no ocidente.
A vida intelectual e a educação, que haviam sido fortemente perturbadas durante o longo século de caos, certamente que não voltaram a ter a sua antiga pujança, e no ocidente, cada vez menos estudiosos eram letrados no Grego. Consequentemente, obras que só estavam disponíveis em Grego, especialmente obras científicas detalhadas, obras filosóficas e obras técnicas, eram lidas e copiadas cada vez menos e, desde logo, começaram a ser ignoradas. A ciência Grego-Romana passou a ser cada vez mais preservada na enciclopédica tradição Latina em vez de ser estudada detalhadamente através das originais obras Gregas.
BarbarosPor volta do Quinto Século, a divisão administrativa entre o Império Ocidental Latino e o Império Oriental Grego não só se tornou permanente, como se tornou também numa divisão política. O Império Ocidental, mais fraco, mais pobre e mais vulnerável, nem chegou a sobreviver o século, com o seu colapso final a ocorrer em 476 AD após mais um século de guerras civis, invasões, e declínio incremental. O que se seguiram foram séculos de invasões, fragmentações e caos, com breves momentos de estabilidade e autoridade centralizada. A frágil tradição intelectual, que já estava em declínio desde o Segundo Século, atingou um novo ponto baixo.
[O Papel da Igreja na Preservação do Conhecimento Greco-Romano]
A instituição que conseguiu impedir que esta frágil tradição [intelectual] morresse por completo durante estes séculos de invasões bárbaras e de desintegração, foi, na verdade, a mesma que o Iluminismo (erradamente) acusa de ter causado o declínio. A Igreja Cristã veio a obter poder político quando o declínio no conhecimento já estava a decorrer no ocidente há mais de um século; consequentemente, ela não o pode ter causado.
Inicialmente, o Cristianismo era ambivalente em relação à filosofia e ao conhecimento Grego, mas proeminentes pensadores Cristãos, que haviam sido treinados na filosofia, conseguiram olhar para isso como algo a ser abraçado. Deus, alegaram eles, era Uma Inteligência Racional e Ele havia criado o universo segundo linhas orientadoras racionais. Fazia sentido, portanto, que os humanos pudessem e devessem usar a razão para entender a Sua criação. Clemente da Alexandria alegou que, da mesma forma que os Judeus haviam recebido o dom divino da Revelação religiosa especial, os Gregos haviam recebido o dom da análise racional. Ambos os dons tinham que ser aceites e usados.
Portanto, quando o Ocidente entrou em colapso, há muito que a Igreja se havia entendido com a filosofia e a ciência dos Gregos, e havia encontrado formas de incorporar e reconciliar ambas dentro da sua religião. E foram os estudiosos Cristãos que viram que o declínio do conhecimento da língua Grega no ocidente significava que muitos dos trabalhos originais dos Gregos se estavam a perder. Tanto Cassiodoro como Boécio tentaram preservar as obras principais traduzindo-as para o Latim.
Boécio foi executado antes de poder completar o seu ambicioso plano de traduzir todas as obras de Aristóteles, mas ele conseguiu traduzir a maior parte das principais obras de lógica - algo que significava que a lógica, e desde logo, a razão, haviam tido um papel central na educação durante o início da Medieval - mesmo durante os mais sombrios séculos de caos. As sementes do renascimento Medieval da ciência foram plantadas com esse acto de sorte.
​O Encapsulamento Medieval da Razão
Um escritor comparou a longa marcha de retorno da catástrofe intelectual do colapso da Império Romano do Ocidente em assuntos relativos ao conhecimento na Europa Ocidental, a um grupo de pessoas a tentar reavivar a ciência moderna após um holocausto nuclear tendo como base nada mais que alguns poucos volumes de Enciclopédia Britânica e uma cópia do livro de Bill Bryson com o título de "A Short History of Nearly Everything".
Durante os Séculos 8 ou 9, os estudiosos tinham suficientes fragmentos de informação para saberem que eles não tinham quase nada, mas tinham o suficiente para dar início à reconstrução do que havia sido perdido. O que é interessante foi a atitude dos Medievais em relação ao pouco que tinham: eles reverenciaram o que estava nas suas mãos. Estes escritores antigos, na sua maioria pagãos, eram tidos como autoridades omniscientes e o que quer que tivesse sobrevivido foi estudado com uma reverência imensa e analisado de forma incansável.
Isto significava que uma atenção particular foi dada à uma das poucas áreas onde um número razoável de obras havia sobrevivido: a lógica, ou a "dialéctica" tal como ela era conhecida. O conhecimento da lógica era central na educação Medieval, e o estudante tinha que saber isso - através das traduções de Aristóteles e de outras obras por parte de Boécio - antes de poder lidar com outros tópicos. Isto teve o curioso efeito do encapsulamento da razão como a chave de todo o conhecimento - um desenvolvimento que é totalmente distinto da visão popular da Idade Média, e da Igreja Medieval em particular, como estando imóveis sobre dogmas inquestionáveis e superstição irracional.
Igreja_Medieval_Idade_MediaCertamente que havia coisas que os académicos Medievais aceitavam com base na fé mas cada vez eles começaram a sentir mais que poderiam chegar a essas coisas, e a outro tipo de entendimento relativo ao universo, através da razão. De certa forma, a perda de muita da filosofia Grega teve o efeito de focar a atenção nos elementos que haviam sobrevivido, e teve o efeito de encapsular a razão no centro do pensamento Medieval duma forma nunca dantes vista.
Por volta do 11º Século as ondas dos invasores Avaros, Magiares, Sarracenos e Vikings havia começado a receder, e a Europa havia-se recuperado economicamente e se estabilizado politicamente, estando, na verdade, perto dum período de expansão para o exterior. Durante esse tempo, houve uma expansão da alfabetização e do interesse no conhecimento, para além duma apurada realização da perda das obras antigas e do que os estudiosos da altura lamentavam como a "Latinorum penuria" ("a pobreza os Latinos").
Pode-se saber o quão intelectualmente pobre era o ocidente Latino através duma troca de correio entre dois estudiosos do princípio do Século 11 - Ragimbold de Colónia e Radolf de Liége - em torno de problemas matemáticos que não iriam perturbar um estudante secundário dos dias de hoje. Temos aqui dois homens claramente inteligentes que, durante os seus dias, eram vistos como estudiosos de topo (tendo as suas cartas sido copiadas e amplamente difundidas) a competir entre si para resolver problemas básicos de geometria, mas sendo forçados a fazer isso usando fracções de geometria adquiridas em manuais de agrimensura duma enciclopédia de Século 6º que pouco mais fez que definir os termos. Isto é uma ilustração tanto do quanto que havia sido perdido durante o cataclismo, mas também do quão ansiosas as pessoas estavam por recuperar o conhecimento perdido.
O noção de que o cosmos era racional e poderia ser analisado com base na razão certamente que  foi resistida por alguns conservadores, mas uma nova onda de estudiosos ganhou proeminência, incluindo William de Conches, Honório de Autun, Bernard Silvester, Adelard de Bath, Thierry de Chartres e Clarenbold de Arras. William de Conches escreveu com desdém sobre aqueles que estavam suspeitos da veneração da razão e da análise racional:
Sendo eles mesmos ignorantes das forças da natureza, e querendo ter companhia na sua ignorância, eles não querem que as pessoa analisem nada; eles querem que acreditemos como camponeses e não perguntemos o motivo por trás das coisas..... Mas nós dizemos que o motivo por trás das coisas deve ser sempre buscado! - William de Conches (c. 1090-1154 AD), "Philosophia mundi"
Intelectuais como William estava cada vez mais a atrair comunidades de estudantes e a reunirem-se com estes estudantes como forma de partilhar ideias, lançando as bases das escolas que mais tarde se tornariam nas universidades. O palco estava montado para um avivamento genuíno e para um florescimento do conhecimento enquanto a Europa ainda sentia a falta dos livros perdidos dos Gregos e dos Romanos.
O Novo Conhecimento e as Universidades
​Por volta do 11º Século os estudiosos Europeus não só estavam cientes do quanto que a Europa ocidental havia perdido, mas estavam também cientes que muitas destas obras haviam sobrevivido e poderiam ser recuperadas. Eles usaram a frase "Latinorum Penuria" porque eles sabiam que havia outros que não estavam tão pobres - nomeadamente, os Gregos e os Árabes [ed: embora a ciência "dos Árabes" tenham na verdade, origem nos Assírios Cristãos].
Com o avivamento da Europa ocidental, agora em expansão militar em todas as direcções, tornou-se mais fácil para os estudiosos ansiosos obter acesso a estes trabalhos e equilibrar a balança. A conquista do grande centro de aprendizagem muçulmano de Toledo em 1085 levou muitos estudiosos até Espanha em busca pelos livros perdidos, e a conquista Normanda de Sicília em 1091 deu livrarias de tesouros literários em Árabe, Hebraico e Grego. E por volta do 12º Século, os estudiosos convergiram para a Sicília, sul de Itália, e para a Espanha, para traduzir estes livros para o Latim, e trazê-los para casas. Um desses estudiosos era o jovem Inglês Daniel de Morely:
Ouvi dizer que a doutrina dos Árabes, que se encontra totalmente devotada ao quadrivium [as quatro artes (na Idade Média - aritmética, geometria, música e astronomia)], era o que se encontrava na moda em Toledo durante esses dias. Apressei-me em ir lá o mais rápido que pude de modo a que pudesse ouvir os filósofos mais sábios do mundo. ... Eventualmente os meus amigos imploraram-me que regressasse de Espanha; e logo, a seu convite,  cheguei a Inglaterra, trazendo comigo uma preciosa multitude de livros.
Durante os dois séculos que se seguiram muitas outras "preciosas multitudes de livros" seguiram o seu caminho para norte, para escolas e para as florescentes universidades da Europa, e o "novo" ensino Grego começou a invadir a Europa exactamente no momento em que a cultura intelectual de lá estava pronta para estimulação.
Igreja_Idade_MediaO que é notável  nisto tudo é a lista de livros que foram o alvo principal dos tradutores. Não havia uma escassez de livros teológicos Gregos Ortodoxos ou antigas peças e antigos poemas Gregos e Romanos disponíveis na Sicília e na Espanha, mas estes foram de modo geral ignorados. Os ansiosos estudiosos do norte concentraram-se de modo esmagador na matemática, na astronomia, na física e na filosofia, bem como na medicina, na óptica e na história natural. Eles não estavam interessados nas peças e nos poemas (deixando-os para serem "redescobertos" mais tarde pelos estudiosos humanistas do Renascimento) - estes estudiosos Medievais estavam interessados nos frutos da razão: ciência, lógica, e filosofia.
O impacto que estas obras recuperadas tiveram, e as obras dos comentadores Gregos e estudiosos Árabes posteriores que as acompanharam, foi revolucionário na rede de universidades que começaram a nascer um pouco por toda a Europa ocidental. Estes novos centros de conhecimento tomaram para si a estrutura académica do currículo das antigas escolas catedráticas baseadas nas "sete artes liberais", combinadas com a estrutura da embarcação e das guildas mercantis (que é de onde se originou também o nome "universitas").
Tal como nas guildas, os estudantes tinham que escolher operar sob a orientação dum "Mestre", passar por um aprendizado longo, estruturado e escrutinizado e só mais tarde passar por uma série de testes e examinações orais antes de serem considerados eles mesmos "Mestres", e passando depois a serem "Doutores" ou professores. Esta estrutura, hierarquia e examinação rigorosa fizeram da universidae Medieval muito diferente das escolas superficialmente parecidas que se encontravam no mundo islâmico ou na Grécia antiga.
A outra novidade radical e crucial no sistema universitário era a forma através da qual o progresso e a proeminência dentro deste sistema eram obtidos não só através do domínio do material dos textos centrais, mas através da disputa e do debate usando um conjunto de regras de lógica formal estabelecidas. Os mestres e os doutores mantinham as suas posições e as suas reputações (e desde logo, o seu rendimento proveniente dos estudantes) através da sua habilidade de vencer debates, frequentemente através da abertura do palco de debates a todas as pessoas.
Os estudantes mais brilhantes podiam ascender rapidamente na reputação e no reconhecimento enfrentando um destes mestres, e vencendo-o [no debate]. Pelo menos duas vezes por ano a universidade fazia uma "quodlibeta" - um torneio com a duração de vários dias, onde ocorriam disputas lógicas rigorosas e onde qualquer pessoa poderia propor e defender qualquer posição em qualquer tópico da sua escolha. Com relativa frequência, ideias altamente controversas, paradoxais ou até heréticas, eram apresentadas e os participantes tinham que as defender ou atacá-las usando apenas a lógica e a razão.
A ideia duma [era] racional, livre para todos, onde as melhores mentes da altura só poderiam usar a razão para disputar ideias tais como "Deus é, na verdade, maligno" ou "o universo não teve início" certamente que não se ajusta à ideia que a maior parte das pessoas tem das Idade Média, mas isto eram ocorrências frequentes nas universidades Medievais.
A Revolução Proto-Científica da Era Medieval

Neste novo ambiente de avivamento do conhecimento antigo, de rigorosa análise racional, e de debates e investigação vigorosos, a Europa Medieval foi testemunha do primeiro florescimento real da inovação científica desde os antigos Gregos. Desenvolvendo ideias propostas previamente por estudiosos Árabes tais como Al Battani, Robert Grosseteste propôs que o académico não só poderia derivar leis universais através das indicações e depois aplicar leis a casos particulares ("o princípio de indução" de Aristóteles), mas eles deveriam também fazer experiências como forma de verificar as indicações.
Roger Bacon desenvolveu ainda mais esta ideia, propondo um método baseado num repetitivo cíclo de observação, hipótese e experimentação. Ambos os homens aplicaram este médito no estudo da óptica, a natureza física da luz, a funcionalidade do olho, e a natureza das lentes. Foi esta análise, que era uma área científica que os estudiosos Medievais consideravam particularmente fascinante, que parece ter levado à invenção dos olhos de vidro. Bacon descreveu também a construção e a funcionalidade do telescópio, embora não esteja claro se ele chegou a construir um.
Com o desenvolvimento Medieval dos basilares princípios científicos da observação e experimentação repetida muito provavelmente veio a mais revolucionária contribuição Medieval para a ascenção da genuína ciência moderna: o uso da matemática como línguagem descritiva do mundo físico. Aristóteles e os Gregos haviam considerado uma má práctica tentar extrapolar duma disciplina (tal como a matemática ou a geometria) para outra (tal como a física).
Mas com o desenvolvimento de ideias mais sofisticadas de raciocínio a partir da observação e indução durante o Século 13 - graças a pessoas tais como Grosseteste e Bacon, os académicos do Século 14 obtiveram a ideia de tornar a observação a indução mais precisas através do uso da matemática e da linguagem da física. Thomas Bradwardine escreveu:
[A matemática] é a reveladora de toda a verdade genuína visto que ela sabe todos os segredos ocultos e tem consigo a chave para todas as subtilezas das cartas. Quem quer que seja, portanto, que tenha a afronta de seguir no estudo da física ignorando a matemática, tem que saber à partida que nunca fará a sua entrada através dos portais da sabedoria.
Bradwardine era uma das pessoas do grupo de estudiosos que trabalhou em áreas-chave na física usando este novo discernimento. Juntamente com William Heytesbury, Richard Swineshead e John Dumbleton, e baseando-se no trabalho de William de Occam e Walter Burley, estes estudiosos da Universidade de Oxford ficaram conhecidos como os "Merton Calculators" e eles lançaram as bases da física moderna, tal como a conhecemos.
Mais importante ainda, ao distinguirem a cinemática da dinâmica, eles derrubaram a anterior concepção Grega do movimento. Aristóteles e os outros estudiosos Gregos haviam olhado para o movimento puramente como um tópico de força externa, enquanto que os estudiosos de Merton olharam para a persistência do movimento através do ímpeto - mensurável através do volume material e da velocidade. Isto lançou as bases para o posterior entendimento-chave do momentum, mas permitiu também que formulassem a "Mean Speed Theorum". Durante muito tempo, isto foi atribuído a Galileu, mas actualmente está claro que foram os "Merton Calculators" que descobriram e provaram este princípio muito antes de Galileu ter nascido (existem também algumas evidências de que ele leu o trabalho dos estudiosos de Merton, mas que apresentou isto como ideia sua sem creditar os verdadeiros autores).
Estas ideias relativas ao ímpeto permitiu mais tarde que os estudiosos Medievais desenvolvessem ainda mais a física e dessem início à sua aplicação na astronomia. Nicole Oresme foi, portanto, capaz de usar o ímpeto para demonstrar que a maior parte das objecções dos antigos Gregos à possibilidade duma Terra giratória eram inválidas. Ele ainda acreditava que a Terra encontrava-se imóvel por outros motivos, mas os seus argumentos foram mais tarde tomados e usados por Copérnico para desenvolver o heliocentrismo.
Orseme, Jean Buridan e Nicolau de Cusa foram também capazes de demonstrar a forma como o ímpeto era constante motivador de poder até que é corrompido ou até que encontre alguma forma de resistência. Isto permitiu que os físicos Medievais colocassem de lado a ideia Grega de que o movimento celestial ocorria em alguma esfera celestial incorruptível onde a física terrena não se aplicava, e significava que as pessoas poderiam começar a aplicar os princípios descobertos na Terra para os movimentos celestiais.
A ideia de que Copérnico, Kepler, Galileu e Newton haviam todos eles desenvolvidos ideias que não se encontravam enraizadas no pensamento que havia sido gerado nos dois ou três séculos que os havia precedido é claramente ridícula, mas esta tem sido a alegação do mito pós-Iluminista relativo à Idade Média. No entanto, a pesquisa moderna objectiva demonstrou que sem o trabalho de pessoas tais como Grosseteste, Bacon, Occam, os estudiosos de Merton, Oresme e Buridan, a "Revolução Científica" nunca teria ocorrido. A revolução teve alicerces Medievais.
​A Igreja Suprimiu Ideias?
Na verdade, nada do que foi detalhado em cima se ajusta de forma confortável com a ideia da Igreja Medieval como uma teocracia violenta, e intolerante que, de modo imediato, consignava qualquer pessoa com um esboço duma ideia nova à fogueira. De facto, os parâmetros para a especulação e investigação dentro da natureza do mundo físico eram bastante amplos visto que a Igreja Medieval considerava o cosmos como um produto racional da Mente Racional de Deus, e que os seres humanos haviam recebido o dom da razão parcialmente para que eles pudessem entender e investigar o universo de forma racional.
Foi por esse motivo que Tomás de Aquino passou anos e muitos milhões de palavras a aplicar de forma meticulosa os princípios racionais da dialéctica dos antigos Gregos à teologia Cristã numa tentativa de mostrar que todas as ideias-chave da crença Cristã poderiam ser atingidas através do uso só da razão. É também por isso que os debates  quodlibeta que decorriam nas universidades Medievais eram abertas a todos, e onde todas as ideias radicais, e até heréticas, poderiam ser propostas como forma de se averiguar se elas poderiam sobreviver à análise racional.
[ed: A porção pró-Darwiniana que se segue é refutada neste link, e também neste]
A Igreja Medieval também não insistiu numa interpretação da Bíblia (o literalismo fundamentalista é uma ideia largamente moderna e Protestante). Isto significava que ela não tinha problemas em ver aspectos da Bíblia como puramente alegóricos, e nem com a exploração como forma de se ver como é que estas verdades simbólicas se aplicavam ao mundo real. A maior parte das pessoas olha para o período Medieval como um onde os literalistas Bíblicos suprimiam o pensamento original embora o medo seja algo de difícil explicação se levarmos em conta, por exemplo, as obras de William de Conches.
Já no Século 12, esta académico sediado na Catedral de Chartres, aceitava que a sua audiência já entendia que a história da criação presente em Génesis era simbólica [[ed: Não é simbólica], e prossegui interpretando-a "segundo a natureza". Ele propôs uma forma através da qual as forças naturais colocadas em movimento por Deus haviam produzido os céus e a Terra tal como os temos hoje em dia.
Ele continuou, falando da vida a surgir duma lama primordial através da acção natural do calor, e da forma como ela se desenvolveu a partir de formas mais simples. Ele chega até a falar da forma como o homem surgiu de forma semelhante, e da forma como, em teoria, outras espécies de seres humanos poderiam surgir da mesma forma através de processos naturais. Todas estas ideias com sonoridade actual (e até Darwiniana) eram aceite pelos estudiosos Medievais sem o mínimo problema, e a Igreja não tinha qualquer dificuldade com elas - de facto, William de Conches, tal como todos os outros cientistas Medievais, era um eclesiástico.
O mais perto que a Igreja esteve de suprimir a ciência de alguma forma foi quando, em reacção às ideias que estavam a ser debatidas na Universidade de Paris no ponto mais alto da redescoberta do pensamento Aristotélico durante o Século 13, a Faculdade de Teologia tentou colocar alguns limites em torno do que poderia ser discutido pela Faculdade das Artes. Nos anos de 1210, 1270 e outra vez em 1277, o Papa - a pedido da Faculdade Teológica de Paris - publicou uma lista de ideias propostas por Aristóteles, ou implicadas pela sua filosofia, que eram contrárias à doutrina Crista, e como tal, estas foram proibidas.
O que é espantoso em relação a isto, antes de mais, é o quão pouco dos escritos de Aristóteles, etc, era de facto proscrito através destas Condenações.
Segundo: é espantoso o quão ineficazes as Condenações foram. Elas só foram aplicadas em Paris, enquanto que a discussão de todos estes tópicos continuou sem qualquer tipo de perturbação em Oxford e nas outras universidades. E, tal como indica o facto destas Condenações terem que ser repetidas duas vezes, elas foram amplamente ignoradas.
Estas Condenações tiveram também um outro efeito: ao alegarem que Aristóteles estava errado em vários pontos, elas estimularam uma análise mais crítica ao trabalho do filósofo Grego, o que levou a que várias das suas ideias fossem analisadas de modo crítico e apuradas como falsas (por exemplo: a ideia de que os objectos mais pesados caiam mais depressa que os objectos mais leves). Duma forma curiosa, as Condenações falharam em suprimir a ciência, e, na verdade, ajudaram a estimulá-la.
A realidade dos factos é que a ideia da Igreja a suprimir a ciência e a análise racional é um mito. Não houve um único estudioso Medieval que tenha sido queimado, preso ou oprimido pela Igreja Medieval por fazer uma alegação relativa ao mundo físico. É por isso que os proponentes modernos deste mito têm sempre que citar um exemplo excepcional pós-Medieval como forma de sustentar esta ideia: o caso de Galileu.
Conclusão:
Portanto, a alegação de que a "ciência fez pouco progresso claro na Europa da Idade Média" baseia-se numa ignorância profunda desse período, e depende dum mito preconceituoso que não tem qualquer base. Mal a Europa Medieval se recuperou do caos que se seguiu à queda de Roma, ela rapidamente avivou a antiga tradição da filosofia natural que havia estado abatida deste o tempo dos Romanos.
Os estudiosos Medievais envolveram-se num espantoso processo de análise do universo físico usando a razão e a lógica e, ao fazerem isso, desenvolveram os princípios que se tornariam os fundamentos da ciência moderna tal como a conhecemos. E eles aplicaram estes princípios de formas que corrigiam os erros que os Gregos haviam feito, levando a cabo o trabalho de base que levaram a descobertas posteriores na física e na astronomia, que deram inicio à Revolução Científica.
Embora as pessoas sem um conhecimento detalhado dos estudos modernos relativos à história da ciência ainda se agarrem aos mitos do Século 19 em torno da Igreja a suprimir a ciência, é hoje claro que sem o florescimento da especulação e da análise durante o período compreendido entre o Século 12 e o Século 15, a ciência ocidental nunca teria surgido.
Ciencia_Segundo_A_Historia
Bibliografia
David C. Lindberg, The Beginnings of Western Science, 600 B.C. to A.D. 1450(1992)
David C. Lindberg, Science in the Middle Ages (1978)
Ronald Numbers, Galileo Goes to Jail, and Other Myths about Science and Religion (ed.) (2009)
Edward Grant, The Foundations of Modern Science in the Middle Ages (1996)
Edward Grant, God and Reason in the Middle Ages (2001)
James Hannam, God's Philosophers: How the Medieval World Laid the Foundations of Modern Science (2009)
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terça-feira, 17 de junho de 2014

De que forma é que o Cristianismo é mais lógico que o ateísmo?

Por John C. Wright

Durante toda a minha vida fui ensinado que a Igreja Cristã era um bastião de insensatez, não só um berçário onde os homens acreditavam em superstições ao mesmo nível da crença no pai natal, mas também um asilo lunático onde os homens acreditavam que três era igual a um, e que os mortos poderiam voltar a viver. Devido a isto, não houve surpresa maior do que descobrir que não só a Igreja não era ilógica, como o ateísmo tinha uma pretensão mais fraca para a lógica e para a razão do que aquela que se dizia ter.

Não estou a afirmar que o modelo ateísta é ilógico. Em vez disso, estou a alegar que a história Cristã do universo é melhor que a sua versão ateísta. Mais precisamente, eu afirmo também que o modelo Cristão é melhor que qualquer modelo ateísta visto que ele explica muito mais, mas com mais suposições parcimónicas.

Existem muitos tipos de ateísmo, mas todos eles têm pontos em comum. Primeiro, um ponto comum é que nenhum dos vários tipos de ateísmo tem uma explicação racional para a natureza objectiva das regras morais. Nem todas as culturas concordam com o tipo de prioridade a dar às várias regras morais, mas uma coisa que é óbvia em relação à estas regras é que elas são objectivas. Quando a culpa nos atinge, ela não nos faz sentir como se tivéssemos traído uma questão de opinião ou gosto, mas sim como se tivéssemos ofendido uma lei. Quando a injustiça se faz presente, nós não acusamos aqueles culpados da transgressão de terem violado algo centrado numa opinião ou num gosto; nós apelamos sim a um padrão que esperamos que os outros saibam e reconheçam. Não conseguimos evitar.

Em toda a experiência humana, tudo está aberto à dúvida, menos isto. Nenhum homem com uma consciência funcional pode escapar a este conhecimento. Isto é uma daquelas coisas que nós não conseguimos não saber. No entanto, os ateus estão totalmente à deriva quando tentam explicar a existência da moralidade objectiva. Não estou a qualificar os ateus de imorais, mas noto que eles não podem dar uma razão racional para justificar a moralidade.

Dentro da cosmovisão ateísta, as leis morais ou são invenções humanas e são úteis para os seus propósitos contingentes, ou então são uma imposição dos mecanismos de sobrevivência Darwinianos que servem os propósitos do Gene Egoísta. Propósitos tais como a preservação da vida ou a felicidade são subjectivos, e desde logo, não são leis na sua essência. Quer elas sejam escolhidas pelos homens ou pela natureza, se as máximas morais são escolhidas apenas como formas tendo em vista um fim arbitrário, elas nada mais são que conveniências de expediente.

Se eu evito matar e roubar apenas e só porque isso reduz as minhas probabilidades na lotaria da reprodução, então quando as circunstâncias surgirem onde o assassinato e o roubo aumentam as minhas probabilidades, que motivo pode um homem dar de modo a evitar que eu mate e roube? Se eu colocar de parte a mentira apenas e só porque isso causa em mim uma auto-satisfação de viver com um sentido de integridade, que motivo pode um homem comum me dar quando chegar o dia em que eu descubra que mentir me satisfaz mais ainda?

Um segundo ponto comum é que nenhum ateísta de qualquer que seja a escola pode justificar a racionalidade do universo; isto é, nenhum ateu pode justificar o facto das abstracções da matemática e as coisas concretas da física combinarem de um modo tão perfeito. O ateu ou assume a racionalidade com um dado, ou assume que os processos do universo evoluíram o homem para pensar num procedimento chamado "lógica". Mas se um processo Darwiniano não-pensante formou o nosso processo de pensamento, não temos razões para assumir que o processo mental é verdadeiramente racional e não só uma auto-decepção útil.

Mais uma vez, o ateísmo não admite qualquer tipo de causa ou efeito ou dimensão sobrenatural na vida, fazendo com que as questões filosóficas em torno da natureza da realidade, natureza da verdade, e a natureza da lógica se tornem suspeitas. Para o ateu, estas coisas não podem ser o produto dum decisão Divina; mas os processos naturais também não podem justificar a realidade, a verdade e a lógica. Semelhantemente, estes mesmos processos naturais não podem justificar a origem das leis da natureza, que, por definição, não podem ser mais antigas que o big bang*.

Para além disso, existem bons motivos para não se ser egoísta. A teoria do Gene Egoísta não explica nada: sou demasiado egoísta para ouvir o meu gene egoísta a exortar-me para me sacrificar durante metade do meu tempo pelo meu filho, e um quarto do meu tempo pelo meu tio. E nem há qualquer tipo de esperança depois da morte que tornem racionais os actos de auto-sacrifício, heroísmo ou martírio. Não estou com isto a dizer que um ateu apanhado nos braços duma paixão ardente não possa dar a sua vida pela pessoa amada ou pela bandeira amada. O que estou a dizer que isto é um lapso de lógica, algo que ele não pode justificar [dentro do seu ateísmo].

O Cristianismo forneceu ao Ocidente três conceitos gloriosos que o mundo pagão antes do Cristianismo, o mundo bárbaro fora da Cristandade, e o parasítico mundo Pós-Cristão, sustentando-se da Cristandade, não têm: o primeiro é o conceito de que o mundo é racional, o segundo é o conceito de que o tempo é linear, e o terceiro é o conceito de que a verdade pode ser conhecida. Os pagãos pensam que o mundo é gerido por deuses caprichosos, e os Pós-Cristãos pensam que o mundo não é gerido por ninguém, sendo nada mais que uma máquina irracional, talvez ordenada, mas sem propósito e sem significado.

Um mundo racional não é possível em qualquer uma destas visões do mundo. O primeiro requer propiciações infinitas para seres espirituais totalmente arbitrários, e o segundo propõe uma vazio niilista onde os homens são abandonados, cada um deixado à sua vontade totalmente arbitrária.

Os antigos Gregos bem como os modernos Hindus acreditam que o tempo é uma serpente a comer a sua própria cauda, e que todos os eventos se repetem de uma forma infindável, sem originalidade, mudança, processos, fim ou forma de serem evitados. Um número infindável de nascimentos antes deste nascimento estão no passado de cada homem, e um infinito número de mortes estão para além da sua morte.

Das religiões pagãs, apenas o Budismo promete uma forma de escapar o círculo vicioso do tempo e ele é o estado de desprendimento e abnegação conhecido como Nirvana, que está mais perto do esquecimento tal como aqueles que acreditam no tempo circular podem imaginar. Este mesmo Budismo e os seus epigones modernos Ocidentais - teosofia, o movimento da Nova Era, as várias formas de misticismo - defendem que o mundo está eternamente para além da compreensão humana.

No século 13 os maometanos rejeitaram a ideia Tomista de Deus como Ser capaz de conferir um poder de ordem inato e movimento à Sua criação. Para eles, todos os eventos ocorrem segundo a vontade de um absoluto e imediato Soberano, que não Se encontra limitado pela honra nem pela lógica a agir amanhã tal como Ele agiu hoje. Tudo ocorre porque Alá quer; o que significa que as coisas ocorrem sem motivo algum. O século 13 viu o final da confiança maometana na razão, e, desde logo, viu o fim das contribuições maometanos para o avanço da ciência, e, desde logo, viu o começo da estagnação que os acorrenta até aos dias de hoje.

[ed: Para se saber mais sobre o mito da "civilização islâmica", ler este magnífico texto escrito por um erudito Assírio]

O mundo pós-moderno é igualmente pós-racional. Se o mundo nada mais é que matéria em movimento, e os nossos cérebros mais não são que computadores cegamente forçados a seguir a programação imposta pelas forças naturais, não há motivo algum para acreditar que os nossos cérebros se conformam à verdade objectiva, e nem que essa verdade se quer exista. Para o pós-moderno, a alma humana é uma duna de areia unida por uma ímpeto caprichoso do vento, e que por acaso tem uma combinação auto-consciente mais complexa que o relógio do avô, mas que uma mudança de vento pode destruir de forma tão cega como a uniu.

Longe de ser suprimida, a razão triunfa onde quer que a Igreja é triunfante. As grandes civilizações da China, da Índia e da América do Sul não tinham motivos para colocar de parte o uso da magia, e como tal, essas civilizações nunca limparam a vegetação rasteira da superstição que era necessário para permitir o crescimento da ciência. A Igreja medieval, longe de ser inimiga da ciência, foi a sua ama-seca; a Igreja foi inimiga da bruxaria e da astrologia, e suplantou-a.

E um olhar para os séculos 20 e 21 revelam que onde quer que o Cristianismo recue, a ciência entra também em decadência. A Revolução Francesa guilhotinou Lavoisier; os secularistas do Nacional Socialismo da Alemanha criminalizaram o cepticismo à conclusão ordenada-pelo-Estado relativa à pseudo-ciência da eugenia Ariana, tal com Stalin o fez em relação à pseudo-ciência de Lysenko, tal como os secularistas modernos estão a tentar fazer em relação à pseudo-ciência do aquecimento global.

Só dentro da cosmovisão Cristã é que a razão e a ciência florescem sem serem vítimas da superstição ou corrompidas pelas seitas - políticas ou não.

Original: "Why Christianity is More Logical Than Atheism" - http://bit.ly/1kMUpDH

* O big bang não está de acordo com as evidências científicas.

quarta-feira, 4 de junho de 2014

Será que os ateus são doentes mentais?

Graças a duas pesquisas feitas há alguma tempo, tem sido propagado dentro dos círculos ateístas que "os ateus têm QIs mais elevados que os crentes". Isto pode ser verdade ou não, mas um problema com este argumento é que se aceitarmos as "diferenças médias de QI entre os grupos", entramos dentro de debates sinistros que os ateus Esquerdistas bien pensant podem não gostar assim tanto.

Enveredemos então pela estrada da infelicidade. Deixemos de lado a métrica rudimentar do QI e olhemos para as vidas vividas pelos ateus e pelos crentes, e vejamos como ela se mede. Dito de outra forma, vejamos quem está a viver de forma mais inteligente. Quando fazemo isso, o que é que descobrimos? Descobrimos que quem está a viver uma vida mais inteligente são os crentes. Uma vasta gama de pesquisas, recolhidas durante as últimas décadas, demonstram que a fé religiosa é fisicamente e psicologicamente benéfica - e de uma forma espantosa.

Em 2004 estudiosos da UCLA revelaram que os estudantes universitários envolvidos em actividades religiosas eram mais susceptíveis de ter uma melhor saúde mental. Em 2006 pesquisadores populacionais da Universidade do Texas descobriram que quanto mais a pessoa ia à igreja, mais tempo ela vivia. No mesmo ano pesquisadores da Universidade de Duke (EUA) descobriram que as pessoas religiosas têm um sistema imunitário mais forte que o das pessoas não-religiosas. Eles revelaram também que as pessoas que vão à igreja têm uma pressão arterial inferior ao das pessoas que não vão à igreja.

Entretanto, em 2009 uma equipa de psicólogos de Harvard descobriu que os crentes que deram entrada no hospital com o quadril quebrado reportaram menos depressão,  menos presença nos hospitais, e podiam coxear mais além quando saíam do hospital - quando comparados com os semelhantemente aleijados descrentes.

A lista continua. Nos últimos anos os cientistas revelaram que os crentes, quando comparados com os descrentes, tinham resultados melhores no cancro da mama, nas doenças coronárias, nas doenças mentais, com a SIDA e com a artrite reumatóide. Os crentes tinham até melhores resultados com a FIV [Fertilização in vitro]. De igual modo, os crentes reportaram também níveis de felicidade superiores, eram muito menos susceptiveis de cometer o suicídio, e lidavam melhor com os eventos stressantes. Os crentes tinham também mais filhos.

Mais ainda, estes benefícios eram visíveis mesmo se ajustarmos as coisas de modo a levarmos em conta que os crentes são menos susceptíveis de fumar, beber ou ingerir drogas. E não nos podemos esquecer que os religiosos são mais simpáticos. Claramente, os religiosos dão mais dinheiro para a caridade que os ateus, que, segundo as mais recentes pesquisas, são os mais mesquinhos entre todos.

Levando isto em conta, urge perguntar: quem são os mais inteligentes? Serão os ateus, que vivem vidas mais curtas, mais egoístas, mais atrofiadas e mais mesquinhas - frequentemente sem filhos - antes de se aproximarem, sem qualquer esperança, da morte envolvidos em desespero, e o seu inútil cadáver é amarrado e lançado numa vala (ou, se eles estiverem errados, eles vão para o Inferno)? Ou serão os religiosos, que vivem mais tempo, mais felizes, mais saudáveis, mais generosos, que têm mais filhos, e que morrem com dignidade ritualista, esperando serem recebidos por um Deus Benevolente e Sorridente?

Claramente, os crentes são mais inteligentes. Qualquer pessoa que pense o contrário é doente mental. E digo isto de maneira literal visto que as evidências sugerem que o ateísmo é uma forma de doença mental. Isto prende-se com o facto da ciência mostrar que a mente humana está construída para a fé visto que evoluímos fomos criados para acreditar, e esse é um dos motivos cruciais que faz com que os crentes sejam mais felizes; as pessoas religiosas têm todas as suas capacidades mentais intactas, e estão a funcionar de forma plena como humanos.

Logo, ser um ateu - tendo falta da vital capacidade da fé - deve ser vista como uma aflição, e uma deficiência trágica: algo análogo à cegueira. Isto faz com que Richard Dawkins seja o equivalente intelectual a uma pessoa amputada, agitando furiosamente as suas próteses no ar, gabando-se do facto de não ter mãos.


Modificado a partir do original: "Are atheists mentally ill?"http://bit.ly/1jQEnZr

quinta-feira, 1 de maio de 2014

Giordano Bruno e os ateus historicamente ignorantes

Há alguns meses atrás, durante a minha visita a Roma, cometi o erro que turista algum deve cometer quando se encontra numa cidade estranha: tomei um atalho. Enquanto caminhava do Fórum de volta para o meu apartamento junto ao Rio Tibre, eu deveria ter tomado o caminho mais óbvio através da Corso Vittorio Emanuele II rumo ao Castel Saint 'Angelo, mas decidi que sabia para onde caminhava, e como tal, usei o caminho mais directo através alguns árvores e rapidamente me perdi.
Depois de me aventurar por uma rede de pequenas vias tentando encontrar a estrada principal, vi mais à frente uma piazza e decidi seguir em frente para me orientar através dela. Parei perto duma estátua no meio da praça para olhar para o meu mapa, olhei para a estátua e rapidamente vi quem era. Apercebi-me que estava no Campo de'Fiori, visto que a estátua era o famoso monumento dedicado a Giordano Bruno, erigido no local onde ele foi queimado na fogueira em Fevereiro de 1600.
Campo-dei-FioriBruno é a imagem-propaganda para a "Draper-White Thesis" - a ideia de que a ciência e a religião sempre estiverem em guerra, uma ideia muito querida do movimento dos Novos Ateus apesar dela ter sido efectivamente rejeitada pelos historiados da ciência há mais de 100 anos. Tentem ter algum tipo de discussão inteligente das inter-relações complexas, reais e cheias de nuances entre a religião e o que estava para emergir como a ciência moderna durante o período medieval e a fase inicial do período moderno, e Bruno é normalmente usado como a "prova" de que a Igreja era um inimigo implacável e ignorante da ciência primitiva. Afinal, porque é que se atreveram a queimá-lo na fogueira senão pelo facto dele ter afirmado que a Terra não era o centro no universo, e que as estrelas eram outros sóis com outros planetas?
Para aqueles que preferem slogans e caricaturas simples em vez do trabalho árduo de efectivamente analisar e entender a História, Bruno é uma resposta simples para uma questão complexa. A nuance e a complexidade são as primeiras vítimas da guerra cultural.
Portanto, quando eu vi os primeiros clips promocionais da versão reformulada da série "Cosmos", de Carl Sagan (desta vez apresentada pelo genial protegido de Sagan, Neil deGrasse Tyson), e reparei numa sequência animada de alguém a ser ameaçado por Inquisidores e queimado na fogueira, soube logo que a ressuscitada série Cosmos seria apresentada com deformações históricas. Acho que isto nada mais é que seguir os passos de Sagan visto que na série original ele desviou-se rumo a uma visão distorcida da Hipatia de Alexandria que fixou na mente duma geração inteira a ideia de que ela era uma mártir da ciência, tal como já falei noutro local.
Portanto, quando as primeiras imagens da série "Cosmos: A Spacetime Odyssey" foram emitidas durante a semana passada, uma das partes mais importantes era uma versão de 11 minutos do mito de Bruno. Eu normalmente refiro-me à fábula moral simplista que as pessoas confundem com a história da relação entre a Igreja e a ciência primitiva como a "versão desenhos animados", visto que ela é reduzida a uma caricatura a preto e branco, simplista e bi-dimensional da realidade. Mas neste caso ela é mesmo a versão desenhos animados; a sequência foi animada, e a voz de Bruno foi providenciada pelo produtor-executivo, Seth MacFarlane, famoso por fazer a série Family Guy; deve ser por isso que Bruno tem um sotaque italiano do tipo normalmente ouvido em anúncios publicitários para uma pizza ou para molhos de macarrão.
Os clichés não acabam com os sotaques apalermados. Na versão estranhamente distorcida da história que o programa mostra, Bruno é caracterizado como um frade jovem e sério de Nápoles, verdadeiro pesquisador da verdade. Mas DeGrasse Tyson assegura-nos que "ele atreveu-se a ler os livros banidos pela Igreja e essa foi a sua ruína." Por essa altura é-nos mostrada uma sequência onde Bruno lê uma cópia de Lucrécio com o nome "On the Nature of Things" que ele tem escondida debaixo do soalho da sua cela.
O primeiro problema com isto é que o trabalho de Lucrécio não foi de maneira nenhuma "banido pela Igreja", e ninguém precisava de o esconder por baixo do seu assoalho. Poggio Bracciolini tinha publicado uma edição impressa do livro um século antes de Bruno ter nascido, e ele nunca foi banido durante o período em que os manuscritos medievais sobre os quais Bracciolini trabalhou haviam sido copiados (e nem foi o livro banido depois da sua edição se ter tornado amplamente disponível). A ideia de que a Igreja baniu e/ou tentou destruir o trabalho de Lucrécio é um mito que Christopher Hitchens gostava de repetir, e um mito que recebeu uma concessão de vida popular através do terrível trabalho pseudo-histórico de Stephen Greenblatt, "The Swerve", que, de alguma forma, ganhou um Prémio Pulitzer apesar de ser uma pastiche de disparates.
O desenho animado de Tuson prossegue retratando Bruno tendo a sua mente aberta pela ideia dum universo infinito presente no livro de Lucrécio, mas sendo depois expulso sa sua confraria por uma turba de personagens de igreja, ao estilo dos vilões da Disney, que aparecem de forma inesperada tal como na "Inquisição Espanhola" da série da humor "Monty Python". Isto, obviamente, é uma parábola bem melhor que a verdade; o trabalho de Lucrécio não foi banido pela Igreja, e Bruno virtualmente fugiu da sua casa religiosa e não foi despejado por ter lido livros maldosos.
Outra coisa que teria complicado este desenho animado simplista seria reportar onde foi que Bruno obteve as suas ideias dum universo vasto onde a Terra não era o centro, onde as estrelas eram outros sóis, onde existia uma multiplicidade de mundos e onde alguns destes outros mundos poderiam ser habitados. Bruno não obteve estas coisas numa visão enquanto dormia, como alega o desenho animado da "Cosmos", mas sim directamente dum homem que ele chamou de "Cusano o divino" - o filósofo natural e teólogo com o nome de Nicholas de Cusa.
Nicolás-de-Cusa1
Se os escritores da série realmente estivessem interessados na verdadeira história em torno das origens do pensamento científico, encontravam-se à sua disposição muitas outras histórias pessoais que poderiam ter sido mais dignas de serem contadas do que a história de Bruno - pessoas que eram proto-cientistas no verdadeiro sentido do termo. Os escritores do programa, Steven Soter e a viúva de Carl Sagan, Ann Druyan, parece que sabiam o suficiente em torno de Bruno para estarem cientes de que não o poderiam apresentar como um cientista, e a narração de DeGrasse Tyson a dada altura menciona que Bruno "não era um cientista".
Mas eles tocam de forma imperceptível no facto de Bruno, segundo a nossa forma de pensar, ter sido um completo místico maluco. Na sua defesa feita à sequência animada de Bruno, que entretanto gerou críticas, Soter ressalva que muitas outras figuras da ciência primitiva também levaram a cabo estudos que nós qualificamos de não-científicos, tais como a obsessão de Newton com a alquimia e com os cálculos apocalípticos. Mas a diferença é que Newton e Kepler dedicaram-se a esses estudos ao mesmo tempo que faziam estudos baseados na verdadeira ciência empírica, enquanto que o misticismo hermético de Bruno, a geometria sagrada, e a ilegível e largamente inventada religião Egípcia antiga eram a totalidade dos seus estudos; ele nunca chegou a fazer verdadeira ciência.
Mas se eles [Soter e a viúva de Sagan] realmente quisessem ser exactos, eles deveriam ter detalhado, ou pelos menos reconhecido, a dívida de Bruno a Nicholas de Cusa, que falou num universo infinito sem centro 109 anos de Bruno ter nascido. Eis aqui o que Cusano diz no seu livro "De docta ignorantia":
O universo não tem circunferência, uma vez que se tivesse um centro e uma circunferência, existiriam coisas para além do mundo, suposições que têm uma total ausência de verdade. Logo, uma vez que é impossível que o universo se encontre fechado dentro dum centro corporal e limites corporais, não está dentro do nosso poder entender o universo, Cujo Centro e Circunferência são Deus. E embora o universo não possa ser infinito, mesmo assim ele não pode ser concebido como finito visto que não limites dentro dos quais ele possa ser limitado.
Este é o discernimento que o desenho animado de Bruno atribui por inteiro a ele. Porque não, então, atribuí-lo a "Cusano o divino"? Bem, isso iria destruir por completo a parábola, visto que, longe de ser pontapeado por vilões mal-encarados ao estilo de desenhos animados da Disney, Cusano era reverenciado e foi na verdade nomeado para cardeal. Isto, claramente, não fica bem dentro da fábula moral de génios livres-pensadores a serem oprimidos por teocratas dogmáticos.
O desenho animado prossegue retratando o corajoso Bruno a dar uma palestra em Oxford perante estudiosos irritáveis e de aparência aristocrática a colocarem objecções à sua promoção do Copernicanismo e, eventualmente, a atirarem-lhe peças de fruta e a expulsarem-no. Mais uma vez, a realidade não é assim digna. Não há qualquer evidência de objecções ao heliocentrismo e o problema que os estudiosos de Oxford tinham com ele era o plagiarismo que Bruno havia feito de outro estudioso. Mas, outra vez, isso não fica bem na fábula do puro livre pensador vítima de perseguição.
A ideia presente por todo o desenho animado é a noção de que ele foi afligido porque deu o seu apoio ao heliocentrismo e à tese dum universo sem limites, onde a Terra não era o centro. Como já tivemos oportunidade de ver, a segunda ideia não era nova e nem era controversa. Pelos finais do século 15, a hipótese heliocêntrica de Copérnico também não era particularmente nova, embora fosse mais controversa (practicamente nenhum cientista a aceitou porque ela era reconhecida como tendo várias falhas científicas). O ponto importante a lembrar é que por esta altura, essa ideia não era considera uma heresia por parte das autoridades religiosas, embora algumas pessoas pensassem que ela tinha alguma implicações preocupantes.
Nicholas_OresmeO próprio Copérnico não havia sido o primeiro proto-cientista a explorar a ideia duma Terra em movimento. Por volta de 1377 o estudioso medieval Nicholas Oresme havia analisado as evidências que apoiavam a ideia da Terra girar, e achou a ideia pelo menos plausível. A Igreja nem se importou com essa ideia. Os cálculos de Copérnico e a sua ideia já estavam circulação muito antes do seu opus ter sido publicado postumamente e ele gerou o interesse de várias figuras ligaras à Igreja, incluindo o Papa Clemente VII, que conseguiu que Johan Widmanstadt desse uma palestra pública em torno da teoria nos jardins do Vaticano que o Papa qualificou de fascinante.
Depois disso, Nicholas Cardinal Schoenburg insistiu que Copérnico publicasse o trabalho inteiro, embora Copérnico tivesse atrasado não por motivos de temer algum tipo de perseguição religiosa mas sim por temer a potencial reacção de outros matemáticos e astrónomos. O heliocentrismo não se tornou num tópico religioso "quente" até o incidente em torno de Galileu, em 1616, uma década e meia depois da morte de Bruno.
Mais uma vez, os escritores de "Cosmos" parecem estar vagamente cientes de tudo isto e como tal, fazem um imaginativo sapateado como forma de impedir a implosão da sua fábula. Na caracterização do julgamento de Bruno feita pelos desenhos animados da série "Cosmos", temos a primeira evidência de que os pontos de discórdia entre a Igreja e Giordano Bruno em nada estavam relacionados com a ideia dum universo infinito, múltiplos universos, ou qualquer outra especulação cosmológica. Devido a isto, os Inquisidores ao estilo da Disney listam uma série de acusações tais como "questionar a Santíssima Trindade e a Divindade de Jesus Cristo" e mais algumas acusações puramente religiosas.
A caracterização da séria gera a impressão de que estas eram acusações menores, ou até acusações inventadas, mas na realidade, estas foram a verdadeiras razões que levaram Bruno, bem como outros, à fogueira. Por mais horrível que isso seja para nós, negar a virgindade de Maria, afirmar que Jesus era só um mágico ou negar a Transubstanciação, podiam levar uma pessoa à fogueira por volta de 1600 AD, embora só se a pessoa recusasse as repetidas oportunidades para se retratar.
Mas o desenho animado da série quer-se manter fiel à sua parábola, e como tal, eles colocam no final da lista de acusações, e nós somos levados a acreditar que esta era a acusação mais grave, "afirmar a existência de outros mundos". Mas como já vimos, isto não era problema algum para a Igreja. Eis aqui o que Nicholas de Cusa diz sobre estes outros mundos no livro que inspirou muitas das crenças de Bruno:
A vida, tal como aquela que existe na Terra na forma de homens, animais e plantas, pode ser encontrada, suponhamos nós, na sua forma mais elevada nas regiões solares e estelares. Em vez de pensarmos que tantas estrelas e partes dos céus se encontram inabitadas, e que só esta nossa Terra está povoada de pessoas - e mesmo assim, com seres dum tipo inferior - iremos supor que todas as regiões se encontram habitadas, distinguido-se na natureza pela sua categoria, e todas elas devendo a sua origem a Deus, Que é o [C]entro e a [C]ircunferência de todas as regiões estelares .... Dos habitantes dos outros mundos, para além do nosso, podemos saber por enquanto ainda menos coisas, não tendo um padrão através do qual os louvar.
Mais uma vez, lembrem-se que Cusano não foi queimado na fogueira, e que ele era reverenciado, louvado e foi feito cardeal.
A única menção feita a outros mundos na acusação contra Bruno especifica que ele acreditava numa "pluralidade de outros mundos e na sua eternidade". Foi esta última parte que se tornou num problema, e não o facto dele ter dado o seu apoio a uma tese que um líder da Igreja havia falado um século antes.
O desenho animado termina com as ressalvas de DeGrasse Tyson relativas ao facto de Bruno "não ter sido um cientista" e que as suas ideias não terem sido mais que "palpites de sorte". Alguns comentadores parecem ser de opinião de que isto de alguma forma absolve toda a sequência das suas distorções, e que o programa apenas caracteriza Bruno como mártir do pensamento livre e que a sua história é uma lição sobre os perigos do dogmatismo. Mas o problema com o desenho animado é que ele é uma pastiche da verdadeira história.
A verdadeira história de Cusano poderia, na verdade, ser muito mais interessante de ser contada, e ela não estaria carregada de bagagem inspirada pela tese Draper-White em torno dos mitos que existem sobre Giordano Bruno. Mas a sequência inteira parece ter sido motivada por uma agenda e a história do herético queimado na fogueira serviu ao propósito dessa agenda duma forma que a história dum cardeal reverenciado livre de oposição nunca poderia ter servido.
O objectivo parece ser o de formar uma opinião em relação ao pensamento livre e ao dogmatismo dentro do contexto da guerra cultural nos EUA em torno do Criacionismo. Que Bruno era um crente em Deus é uma ideia repetida por diversas vezes no desenho animado, embora ela tenha sido mais um panteísta que outra coisa qualquer. Mas ele é mostrado como um crente de mente aberta e sem constrangimentos que foi oprimido e, eventualmente, morto pelas forças do dogmatismo literalista.
O grito de Bruno quando lhe estavam a atirar peças de fruta em Oxford - "O vosso Deus é demasiado pequeno!" - é, na verdade, o propósito de toda a parábola. Toda a sequência tem como alvo os literalistas dogmáticos da guerra cultural Americana ao mesmo tempo que tenta apelar aos crentes, dado que a maior parte da audiência Americana seriam teístas. Esta é o enquadramento desta fábula e os escritores cortaram partes da verdadeira história de Bruno e de forma desarrumada uniram tudo até gerar esta mensagem moderna.
Grande_Oriente_ItaliaE isto leva-me de volta ao meu encontro com a estátua no Campo de'Fiori; a estátua foi criada por Ettore Ferrari, e erigida em 1889 pouco depois da unificação da Itália, apesar da oposição da Igreja. O monumento, erigido por membros da Ordem Maçónica "Grande Oriente de Itália", foi um símbolo político anti-clericalista deliberado. Os ateus e os livres pensadores reverenciam-na até os dias de hoje, e comemoram a execução de Bruno no dia 17 de Fevereiro de todos os anos.
Claro que qualquer pessoa que ressalve que Bruno é um ícone ridículo para os ateus, dadas as suas visões místicas excêntricas e as suas prácticas mágicas, é normalmente ignorada. E qualquer pessoa que tenha a temeridade de ressalvar que Bruno foi executado por motivos puramente religiosos, e não por especular acerca de uma multiplicidade de mundos ou um universo infinito, é normalmente (e de modo bizarro) acusada de justificar a sua horrível execução.
Tal como já disse, para pessoas que se identificam como "racionalistas", muitos dos meus amigos ateus podem ser tudo menos racionais. Infelizmente, o desenho animado tolo de Neil deGrasse Tyson, Ann Druyan, Steven Soter e Seth MacFarlane sobre Bruno não irá definitivamente ajudar em nada em relação a isso.